sexta-feira, 24 de abril de 2015

TERCEIRIZAÇÃO II

Recebi via WhatsApp a colaboração do amigo e advogado Washington Lopes.
Apresenta algumas abordagens novas ao tema já publicado, especialmente sob o ângulo jurídico, sua especialidade.
O amigo referido me autorizou a publicação como vai abaixo:


TERCEIRIZAÇÃO
Nossas  considerações à apreciação dos amigos:

Atualmente, a Súmula 331 do TST considera ilegal a terceirizacão de atividade-fim do empregador, permitindo a terceirizacão apenas nas atividades consideradas meio, ou seja, aquelas que, apesar de necessárias, não são inerentes ao objetivo principal da empresa. Se o Pl 4330/2004 for aprovado cairá a Súmula 331, hoje única defesa da terceirizacão sem limites. Os Ministros xo TST, a Associação Nacional dos Magistrados Trabalhistas, a OAB e a ABAT - Associação Baiana de Advogados Trabalhistas, já manifestaram a sua rejeição ao Projeto de Lei.
A Súmula 331 entende a terceirizacão da atividade-fim como uma maneira de o empregador intermediar mão de obra de forma fraudulenta  visando barateamento.  Com ela os trabalhadores conseguem vitórias na Justiça provando que exerciam atividades similares aos contratados diretos das empresas tomadoras dos serviços e os Juízes reconhecem o seu vínculo com a empresa, quando não a igualdade de direitos determinando o pagamento de benefícios previstos em Lei, Convenções Coletivas e regulamentos internos. Se o PL 4330/2004 for aprovado isso não mais ocorrerá.
Acabará também a RESPONSABIDADE SOLIDÁRIA do tomador dos serviços em  caso de fraude. O texto aprovado atribui às empresas tomadoras apenas papel secundário, ou "responsabilidade subsidiária" no  caso de pagamento de direitos em que houver discussão judicial do contrato.  No formato aprovado o contratante somente é responsável pelo pagamento dos direitos depois de esgotadas todas as tentativas de a contratada (a fornecedora da mão de obra) quitar suas obrigações, o que pode levar anos.

Pontos mais nocivos do Projeto:

- Empresas sem empregados:
O PL permite a existência de uma grande empresa sem empregados quando permite a terceirizacão de suas atividades-fim.

- Sem isonomia:
O PL defende igualdade apenas no direito à utilização de  banheiros, refeitório, ambulatórios e creches da empresa contratante.

- Quarteirizações:
O PL também permite que a empresa prestadora de serviços contrate outra empresa para determinadas atividades o que representa mais riscos aos direitos dos trabalhadores.

- Queda de qualidade:
Com salários baixos, alta rotatividade, jornada extensa e pouco treinamento os serviços prestados são de baixa qualidade.

- Mais acidente:
De cada 10 acidentes de trabalho 8 são com empregados de empresas terceirizadas.  Significa mais gastos previdenciariários e com a saúde pública,ou seja, toda a sociedade paga o preço que os tomadores dos serviços querem economizar.

Essas são as considerações que julgamos conveniente transmitir  aos queridos amigos.
Abraços do Washington.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

TERCEIRIZAÇÃO

Um assunto corriqueiro volta à polêmica!
Alguma instituição, que tenha a capacidade de contratar pessoas para execução das suas tarefas, necessárias ao cumprimento de seus objetivos, resolve fazê-lo usando a intermediação de uma terceira.
Sim, a intermediação institucional é o que caracteriza está prática, que passou, há muito tempo, a se chamar de "terceirização", sobre a qual nossos legisladores procuram agora estabelecer alguns condicionantes de controle em Lei.
Por que alguém optaria por colocar um intermediário impessoal, em algo que, em tese, tenha capacidade de executar diretamente? Sabe-se que a sua simples adoção já implica necessariamente em aceitar um acréscimo nos custos: aqueles relativos à coordenação e à justa lucratividade da instituição eventualmente contratada.
Mesmo num olhar simplista, já pode parecer que é algo que vem em oposição à busca de ganhos de produtividade, pois, sempre gera custos adicionais, que, se não forem devidamente compensadas por outros ganhos operacionais muito maiores, vão se somar, encarecendo o serviço a ser prestado. Uma análise deste ponto deve ser sempre feita, para que a opção aconteça sempre dentro de mínimos critérios econômicos lógicos racionais, quando claramente vantajosos para todos os envolvidos.
Utrapassada esta questão, puramente de cunho econômico, quando uma equipe terceirizada passa a cooperar, permanentemente, em ambientes onde também atuam grupos contratados diretamente pela instituição, passa a existir, quase na totalidade das vezes, uma discriminação entre pessoas que, embora com tarefas diferentes, concorrem unidas para um propósito comum maior, aquele desejado pela organização contratante, tanto os trabalhadores diretos, como os "terceirizados". Neste sentido, os melhores conselheiros de relações humanas são uníssones em considerar a impropriedade de se estimular qualquer tipo de discriminação, especialmente entre colaboradores que buscam interesses gerais e comuns.
Este aspecto discriminatório, já nocivo em termos da motivação das pessoas envolvidas, passa a acrescentar pontos agravantes quando a devida retribuição ao trabalho, se diferencia em natureza. Explico: Excetuando-se os benefícios trabalhistas mínimos legais, que devem obrigatoriamente ser os mesmos para todos, ainda se estabelecem outros, os quais, a prática mostra, vem sendo muito diferenciados e contribuem para estabelecer, num ambiente de trabalho comum, trabalhadores de categorias diferenciadas, influindo, mais ainda, no aprofundamento discriminatório. Refiro-me aqui a critérios de estabilidade, cobertura de planos de saúde e de previdência privada, uniformização e filiação sindical, que, na quase totalidade dos casos, existem para uns, inexistentindo ou diferenciando-se abruptamente para outros.
Outra questão importante é a transitoriedade contratual de certos serviços, que por sua natureza são permanentes, como, por exemplo, manutenção, limpeza, portaria, secretária, recepção, atendimento de balcão, etc.. Nestes e similares se colocam pessoas que deveriam ser motivadas, além de contra-prestações pecuniárias e utilitárias, por anseios de natureza mais duradouras, como ascensão de carreira e compromisso com os objetivos institucionais do trabalho. Num regime de tarefas sob prazos limitados e curtos, tais estímulos ficam extremamente dificultados e eventualmente soam mesmo como falaciosos.
Considerando todas essas desvantagens, devemos cuidar com redobrada atenção para que tal alternativa não mascare alguma tentativa de exploração pura e simples de "mão de obra“, tal como se fossem objetos que, numa prateleira, podem ser usados e descartados, quando não mais sejam úteis. Deve-se, portanto, rejeitar qualquer forma de pura exploração do trabalho humano, com pouquíssima ou quase nenhum comprometimento com o desenvolvimento pessoal do trabalhador, com análogos programas de treinamento e desenvolvimento profissional e humano, sempre promovidos por saudáveis organizações empregadoras, socialmente bem inseridas.
Para aqueles tipos de tarefas acima referidas por suas específicidades, onde não há diferencial tecnológico expressivo por parte da instituição prestadora, carece a existência de maiores ressalvas ainda quanto a existência de absoluta ética e lisura processual na contratação e operação, com severa vigilância entre as instituições concorrentes, para que não se abram espaços maiores, para a ocorrência das piores e abomináveis práticas concorrenciais.
Atualmente não é raro se verificar que a maioria de pessoal de atendimento à população, tanto no serviço público como no privado, além de condomínios, vem sendo composto de pessoas desvinculadas dos quadros funcionais dos órgãos promotores do atendimento. Isto vem mostrando maior descompromisso dos atendentes relativamente aos melhores propósitos desejados, transformando aquele contato interpessoal num emaranhado de desentendimentos, algo que vem se assemelhado com as perversas consequências dos "call centers" já, há muito, abominadas pela população.
Muitos sindicatos, com certa razão, vêm se opondo a generalização desta prática pois expressivos contingentes, em certos setores, embora nestes exercendo o seu trabalho efetivo, passam a ter filiação sindical desvinculada daquela categoria, com fragilização artificial da representatividade e fuga das conquistas trabalhistas já obtidas nos acordos daqueles setores.
Outro ponto de difícil aceitação é que, de modo geral, a terceirização serve para esconder eventuais desvios de natureza ética ou de produtividade, pois os trabalhadores operando neste regime, apesar de exercerem efetivamente o trabalho, como qualquer outro, podem, com facilidade, ser suprimidos das estatisticas relativas ao esforço humano aplicado, assim como as condições que o fazem.
Por todos esses argumentos, quando impossível de outro modo, e se desejamos contribuir para que nossa sociedade se caracterize crescentemente por relações de trabalho benéficas e estimulantes à prática do trabalho e consequente conquista do desenvolvimento, devemos cuidar, o máximo do nosso alcance, para que inexistam artifícios que venham estimular qualquer. forma disfarçada de subemprego.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

MINHA CARREIRA - Buscando Rumos

MINHA CARREIRA - BUSCANDO RUMOS


Lá pelos 14 a 15 anos, eu não tinha ainda descoberto qual seria a minha vocação. Compartilhei esta dúvida com meus pais. Eu me interessava por muitas coisas variadas,  mas, preliminarmente, contava com facilidade em lidar com a funcionalidade dos objeto e peguei a mania de abrir utensílios domésticos, simplesmente para entender seu funcionamento. As vezes os consertava e raramente necessitava ajuda de alguém para me ajudar. Sempre que isso acontecia, dava um jeito de acompanhar atentamente. Por isso meus parentes apostavam que encontraria meu rumo nalgum tipo de engenharia. Certa vez, numa dessas proezas, causei um curto circuito na casa, que me deixou muito desapontado. Levei uma bronca, mas meu pai de deu um manual de eletricidade para crianças, usado pelo SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial. Entendendo melhor do assunto, isso nunca mais se repetiu!  


Como isso não era uma certeza, outras coisas também me despertavam curiosidade e prazer, deste modo, meus pais me inscreveram para fazer um exame psicológico de orientação vocacional. Saiu como resultado que eu poderia escolher à maioria das vocações, com sucesso, desde que houvesse dedicação para o aprendizado. Outras atividades que pratiquei nessa época, à título de experimentação, um rápido estágio como aprendiz de mecânico, nas Caixas Registradoras National e um outro, não tão rápido, como aprendiz de fotógrafo junto a Leão Rozenberg, famoso profissional da época, que me conduziu a participar da equipe que documentou o filme O Pagador de Promessa, produzido por Anselmo Duarte, tendo como astros principais Leonardo Vilar e Glória Menezes, tendo, no interior de uma câmara escura, trabalhado na revelação de todo o acompanhamento cenográfico da obra, onde conheci alguns atores e pessoalmente a atriz Norma Benguel, mulher de Anselmo e considerada como uma “Brigite Bardot brasileira”. Andei atirando para muitos lados, mas continuava na mesma, com a agravante de aumentar a incerteza.


Desde os sete até os dezoito anos participei do Escotismo, nos seus diversos graus de classificação etária e de adestramento, chegando à chefia. Na maioria do tempo, fui Escoteiro do Mar, que em Salvador, cidade onde morava, dispunha de excelentes alternativas para a pratica marinheira. Neste movimento paralelo à educação formal, além da pratica de importantes valores sociais, pude aprender noções de diversas técnicas como: construção com material rudimentar, com estabilidade e resistência, nós aplicáveis em amarras para estas e para atividade embarcada, navegação e orientação geográfica, ventos, regras de civismo, culinária, cultura física, primeiros socorros, fogo e sua prevenção e combate, meteorologia, comportamento na selva, valor da disciplina e uma série muito grande de ensinamentos, tais como numa carreira militar, servindo também como experiência útil para a minha escolha de carreira profissional do resto da vida.


Tentei, com apoio dos meus pais, várias alternativas. Concluído o ciclo básico dos estudos, pensei, como primeira alternativa, era logico, o curso de nível técnico de Engenharia Eletro-mecânica. Naquela fase da minha vida, tive muita resistência aos estudos formais, cujos conteúdos eram por demais desconectados da realidade. Preferia começar a trabalhar o quanto antes e, assim, ficar um pouco mais independente. Por ser fraco em matemática, acabei desistindo do rigoroso exame para Eletro-mecânica, e optando pelo curso de Contabilidade, nível técnico, sem teste admissionais, que,  após concluído, me possibilitaria, pelo menos, um trabalho autônomo.


A partir dos dezessete anos, iniciei minha vida como trabalhador formal, ingressando como auxiliar de contabilidade numa grande empresa de verejo e concessionária de veículos e em seguida, fui bancário, até me graduar como Técnico de Contabilidade e iniciar atividade de autônomo, juntamente com dedicação junto a um grande Escritório de Salvador, cuja concentração de clientes atuava nos ramos de Construções e Terraplanagem e de Distribuição de Combustíveis.

Assim, atuando com concentração na área de Contabilidade e Fiscal, cursei o meu curso universitário de Administração de Empresas.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

MINHA CARREIRA - Passos Iniciais.


Aos sete anos de idade, senti curiosidade do que seria trabalhar. Via os adultos conversando sobre aspectos, pessoas e relacionamentos envolvidos em suas atividades profissionais e me mantinha atento, imaginando outras circunstâncias que aquilo envolvia.


Meu avô, Antoninho Vieira,  homem austero, com quem morávamos, tinha um armarinho chamado A Nova Cruzada e, quando se aproximava a festa de carnaval, precisava de todo apoio possível para arrumar e embalar mercadorias nos preparativos da festa.


Nessa oportunidade, me ofereci para ajudá-lo e,  assim, matar alguns espaços daquela imaginação. Lá na loja dele, passei alguns dias separando e pesando certa mercadoria que ele havia comprado em lotes maiores, e embalando-a, em pequenos sacos, para venda em pontos de varejo que ele instalava nas proximidades do evento.


Com esta experiência precoce, passei a ter uma ideia muito mais clara sobre certos requisitos que revestem uma atividade de trabalho disciplinado, quais sejam: pontualidade, assiduidade, obediência, hierarquia, dedicação, diligência, esforço pessoal, como básicos e fundamentais.


Meu avô, e agora meu chefe, era um homem muito espiritualizado e de trato suave, porém suficientemente rigoroso e conservador nas coisas que envolviam o seu negócio. Assim, se constituiu no meu primeiro mestre, paradigma de seriedade e outras importantes características  do meu comportamento enquanto homem de trabalho, para o resto da minha vida.

Após esta experiência que funcionou basicamente como um estágio de capacitação, continuei meus estudos e lá pelos 13 anos, resolvi estudar à noite e voltei a trabalhar com ele, por vários meses, no balcão, em atendimento de clientes, tanto em sua loja matriz, como numa filial existente em uma região de comercio mais refinado de Salvador, chamada “Piedade”.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

EMOÇÃO DE UM TRANSPLANTADO

EMOÇÃO DE UM TRANSPLANTADO

Em 25 de setembro de 2014, coincidentemente data do meu aniversário, o Hospital São Rafael, em Salvador, BA, comemorou o dia do transplantado. Participei do evento, como modesta tentativa de exprimir minha gratidão a todos que contribuiram para meu bom estado de saúde atual e, principalmente, em condições para viver e ser feliz.
Foi um encontro com vários depoimentos, por diversos transplantados, de variados órgãos; fígado, rins, córnea, pâncreas, medula; transplante duplo, e até sequenciado, um é depois outro. Alta emoção estava presente em todas as falas, e culminou, no coração de todos, quando foi anunciado um depoimento presencial, daquele que fora,  até aquele momento, alvo de gratidão de todos, um doador: Um jovem com aspecto extremamente saudável e bem humorado veio nos testemunhar a sua alegria e gratidão de ter podido contribuir com aquela causa, todos se impressionaram com sua alegria e disponibilidade, para doar-se em forma de medula óssea, plaquetas e sangue, e mantendo-se, como todos viam, cheio de bem estar e, sobretudo, feliz.
No fim dos depoimentos, cabia a mim dizer algumas palavras de gratidão. Preparei-me com afinco desde a véspera. Elaborei previamente algumas "linhas-guia" para me orientar, e segui confiante sobre o conteúdo, porém fiquei muito emocionado com as narrativas. Pensei, parece que meu tema, gratidão, já está bem preenchido por todos. Que teria eu a acrescentar? Confesso: bateu uma autocrítica severa, mas não esmoreci.
Chegando ao pódio, mal conseguia falar. Lembrei-me que, na véspera, enquanto me preparava, Dôra, minha mulher, que sempre me acompanhara e lá me olhava fixamente, me apresentara um texto que lhe viera à inspiração, durante meu ato operatório. Foi minha salvação, Pedi para lê-lo e também usou o tempo para traduzir nossa homenagem ao Dr. Luiz Guilherme Lyra, mentor do meu transplante, falecido enquanto viajamos. Quando tomei a palavra, já calmo e seguro, segui fielmente à minha idéia preparada, sem olhar as anotações e enriquecendo-a com minhas inspirações sobre o amor, sua fonte, o próprio Criador, a síntese que nos foi dada por Seu Filho nos mandamentos da Boa Nova.
Lembrei-me também de uma menção carinhosa, sem citação de nomes e números, ao primeiro transplantado do mundo, em 1967, na África do Sul, que com sua curta sobre-vida de 18 dias, Louis Waskanski, 53, tanto ajudou aos cientistas, da equipe do Dr. Christian Bernard,  no aperfeiçoamento da técnica que finalmente nos favoreceu. Todos aplaudiram em aprovação aos pensamentos, não meus próprios, mas frutos de uma inspiração muito bem vinda e iluminada. Adiante, vai a recuperação daquele texto que havia preparado com antecedência.
Antes de iniciar minha fala, quero compartilhar com todos uma mensagem que recebi de uma querida prima da mesma idade que eu, transplantada três anos antes de mim, quando lhe pedi um dica sobre o que dizer, neste momento, a vocês.
"Só lembrei de uma frase de Guimarães Rosa: 'Viver é um rasgar-se e remendar-se' Estou 'remendada' há 4 anos e muito feliz por estar viva.
Agradecida por ter recebido este presente maravilhoso de um doador anônimo: um fígado em bom estado. E também, a todos os que me ajudaram nas fases antes, durante e depois.
Me sinto abençoada."
Seu nome é Mary Lou Tolentino C. Rebelo.
Esta, quase irmã, junto com com o muito saudoso e referido Dr Luiz Lyra e, de modo especial, minha mulher, foram decisivos na minha aceitação deste, que considerava naquele tempo, tão arriscado tratamento.
Até ainda há pouco, não sabia se o dia de hoje era do transplante ou do transplantado. Num caso ou noutro, acho que, o grande merecedor de todas as homenagens é doador. Não que que ele tenha necessariamente feito qualquer esforço para isso. Mas, nos dá o que tem de mais valioso, vida, que possibilita nossa existência continuada.
Assumimos, deste modo, responsabilidades por duas continuidades: da nossa vida original, e da parte deles, que em nós está presente.
Devemos, também, os transplantados, uma homenagem e imensa gratidão aos profissionais de saúde de todas as categorias, especialmente os médicos, pela desmedida dedicação e extenso aprofundamento intelectual que possibilitaram e, temos certeza, cada vez mais, possibilitarão, de modo crescente e seguro, conduzir está maravilhosa conquista científica, de que fomos merecedores, perante ao Pai Criador.

Paulo Tolentino Vieira, um transplantado de fígado, 25/09/2014

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

CRUZ DAS ALMA - PALCO DE MINHA INFÂNCIA

A cidade Cruz das Almas, no final dos anos 1950, ficava aproximadamente há 6 horas da Capital, Salvador, numa viagem pelo Vapor de Cachoeira, de mais ou menos, quatro horas, além de, mais quase duas horas, subindo por rodovia de chão até lá. Ficava numa gleba de planalto e, no inverno, chegava a fazer um friozinho gostoso pela noite.

Quando eu era menino, ia para lá nas férias, ficava com os queridos tios Clodoaldo e Ivandith, para passar algum tempo brincando com Nadinho. Aliás, não só com ele, mas com toda aquela turma unida, que eram os filhos dos professores da Escola Agronômica da Bahia, onde meu tio, que eu admirava por seus valores morais e intelectuais, era também professor. Ministrava Mecânica Agrícola. Tudo que se refere à mecânica, sempre me fascinou. Os professores moravam todo juntos, num bairro interno da área da escola. Que lugar e pessoas interessantes!

Naquela época, o "campus" era um notável avanço sócio tecnológico, situado naquelas plagas longínquas. Lembro-me que as casas tinham água quente, vinda de equipamento instalado acima do fogão a lenha, usando energia térmica das suas brasas. Produzia água quente para todo o dia e ainda a conservava noite à dentro. Que avanço tecnológico notável, para uma época que a energia de biomassa ainda era muito abundante e barata! Para água de serviço, cada casa tinha um poço subterrâneo, com cisterna e bomba elétrica; A água potável era fornecida por um aguadeiro que percorria regularmente as casas, com um jegue com caçoar às costas, trazendo alguns barris de madeira. Sua qualidade era muito fina e saborosa! Logo após, foi inaugurada uma caixa d'água comunitária, à vista da varanda da casa de Nadinho. A lenha do fogão também era fornecida regularmente por um trator com carreta, da própria escola, ou se a obtinha com facilidade pelas redondezas, até mesmo recolhendo gravetos ou paus secos nos fundos do quintal, com pomar de árvores frutíferas, selecionadas à critério de cada morador. Essas casas tinham ainda um jardim frontal sempre muito bem cuidado. O conjunto era muito harmônico! Na entrada do prédio principal da Escola, havia um extenso jardim pergolado sempre florido. Era orientado pelos professores, especialistas do assunto. Lembro-me do nome de Paternostro, como um dos entusiastas que sempre o comentava.
Nos aspectos sociais, estava o ponto alto daquele excelente convívio, apartado do tumulto que já começava a se avizinhar das grandes cidades. Eu, de fora, me comprazia em ter amigos para brincar soltos na rua! No bairro que eu morava em Salvador, estas proezas eram já impossíveis pela insegurança e trânsito crescentes, com autos e coletivos. Lá, o tempo extra escolar era tomado pelo companheirismo de todos, em “babas”, caçadas para abastecer cozinhados com as meninas, e outras “reinações” parecidas com as encontradas em Monteiro Lobato, um dos meus escritores preferidos na infância. Pensava: eles nem precisam ler, para ter tudo isso presente na vida. Com uma certa ponta de inveja.

Nos festejos juninos, aquele enlaçamento de adultos, crianças e adolescentes era gostoso e enchia minha alma. Ali ensaiei meus primeiros passos em muitas coisas: na fé, com novenas de Sto. Antônio da casa de D.Safira e Dr. Ivan Carneiro, e sua turma de filhos crianças e adolescentes, com a dança e apreciação da boa música nas serestas de Dr. Floriano Mendonça (que vozerio e afinação!), Dr. Conceição (Mestre das cordas), e o adolescente Luiz Fernando - que já ia adiantado na sua arte, além de muitos outros amigos. Os cortejos, de casa em casa, com muita musicalidade e comilança eram motivo de integração e prazer muito grandes. Além da participação inter geracional evidente em tudo, como comentado no caso da música, nunca me esqueço também, de meu irmão, ainda muito pequeno, dançando e contrastando com o porte de D. Leonor Ramos, num par muito curtido por todos.

Numa das visitas, convivi com a época do exame de admissão ao Ginásio Alberto Torres, que Tio Clodoaldo se dedicava paralelamente à Direção. Os dias que o antecediam eram de grande tensão social, cada família torcendo e tentando robustecer a capacidade de seus candidatos, tal o rigor que a contenda era revestida. O corpo docente era integrado significativamente por aqueles professores universitários da Escola Agronômica e suas esposas que, com filhos ainda escolares, “endureciam o jogo” para alcançar qualidade de ensino crescente. Muito justo, procuravam o melhor para todos!

Voltei para morar lá, por dois anos, quando trabalhei na obra da Barragem de Pedra do Cavalo, no final dos anos 1970 e com família já se constituindo. Meu filho mais velho, Bruno Lopes Vieira, veterinário, com quase 40 anos, afirma ter ótimas recordações de lá, onde viveu sua primeira infância e início da alfabetização. Já era uma outra realidade, mas um sabor igualmente prazeroso. Como tenho saudade daquela primeira Cruz das Almas que conheci.

Venho aqui me congratular, além do meu primo Nadinho e da querida Avani que também compartilhava conosco e com todos seus e meus amigos: Flavinho, Deca e Aída, Jackson e Pedrinho, o saudoso Niltinho, seus irmãos Miguel, Jorginho, Ivanira, Aninha e Laurinha, Luiz Fernando, Jonga, a saudosa Carolina e Paulo Sérgio, Jorginho e Cátia, Dino e Lúcia, Zinaldinho, João e Liginha, Luciano, Eraldo, e tantos outros que embora também permanecem dentro do meu coração e com muito apreço, pelo transcurso de quase 60 anos, não consigo recordar todos os nomes.

Minha mulher costuma repetir um dito do pai dela: “Todo Agrônomo que conheço é gente boa”. Estendo o raciocínio; “Laranjeira não dá jaca!” e “Filho de peixe é peixinho”, portanto congratulo-me, neste dia, com vocês e todos que, agradeço, reconhecendo o tanto ajudaram a colorir minha infância.
Paulo Tolentino, 13 de setembro de 2014,  com apoio de Ivanaldo G.  Costa - Nadinho

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O DINHEIRO E SUA “MÁGICA”

A experiência que acumulei e a que reuni me apresentaram uma lição. Parece mesmo que o dinheiro tem uma mágica, a do equilíbrio ao longo do tempo.


Passei a acreditar que o dinheiro, quando é transferido de boa vontade, ou quando é trocado de um modo no qual ambas as partes se sintam em equilíbrio de satisfação, ele frutifica. É como se fluísse acompanhado de uma boa energia desenvolvedora. Como é aquela edificante que acompanha o "dinheirinho suado e merecido".


Alguns exemplos que testemunhei construíram e fortificaram está minha avaliação:


  • Riquezas obtidas como fruto de roubos, ou atos ilícitos do ponto de vista ético ou de legitimidade raramente acabam resultando em bons proveitos para quem os obteve.
  • Poucos são os herdeiros conflituosos que chegam a prosperar com o fruto de seus legados, alcançando prosperidade perene.
  • Excetuando a sustentação normal de filhos, certos artistas notórios ou mesmos pessoas comuns que separadas recebam pensões vultosas dificilmente alcançam os propósitos de realização perene e felicidade. Examinei muitos casos e não tive muitas evidências contrárias.
  • Em mercados livres, os preços dos bens ou serviços, quando exorbitantes, acabam punindo os ofertantes com redução de suas vendas, decorrente de surgimento de concorrentes, por renúncia de compradores ou por outros fenômenos regidos por uma lei econômica chamada de Lei da Oferta e da Procura, que regula naturalmente os preços, nas relações de troca.
  • Os impostos e a tributação, quanto mais escorchantes, menos resultam em notáveis vantagens, para os governos que os impõem e povos que os aceitam. Parece-me que os investimentos necessários para tentar justifica-los e para robustecer desmedidamente um máquina arrecadatória acaba consumindo a maior parte, além da corrupção que acaba se instalando como se fosse para dilapidar a desmedida. A esse propósito, lembro-me do ensinamento da Curva de Laffer 1 que resumidamente mostra que uma arrecadação à alíquotas extremas de 0% ou 100% resultariam em igual valor nulo de resultado. Logicamente, entre esses dois extremos, vários valores significativos existem. Começam crescentes e, a partir de certo ponto, começam a decrescer. Concluo aqui, que,  em alguns povos, esse "fenômeno", natural ou não, acaba por "amaldiçoar" os fluxos de riqueza inapropriadamente direcionados, que condena países de pequena capacidade geradora de riquezas mas com desproporcional carga tributária ao baixo desenvolvimento social.


Por casos como os acima enumerados, chego até mesmo a tentar resistir ao pensamento que  haveria uma força "mágica" a considerá-lo como ganhos "malditos”, não encontrando excessões relevantes. Após refletir e pesquisar sobre que traço comum estaria presente nesses exemplos, sou inclinado entender que; se a utilidade (bem ou serviço) que alguém transfere para outro tem seu valor espontaneamente reconhecido, este valor, ao se transformar em pagamento, tem o condão da representar o equilíbrio, numa troca bem aceita. E por isso, considerado legítimo. E só assim pode contribuir para o sucesso e a felicidade.

1 - Curva de Laffer - publicada pelo Norte Americano  Arthur Laffer e popularizada por Jude Wanniski na década de 1970  (vide verbete específico na Wikipédia)